Fórum OncoJúnior tratou de cuidados envolvendo crianças e adolescentes

No Brasil, a incidência de câncer entre crianças e adolescentes corresponde a 3% de todos os casos diagnosticados no País, mas as estimativas indicam que, apenas em 2016, surgiram 12,6 mil novos casos entre meninos e meninas de até os 19 anos no Brasil. Segundo os números do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a mortalidade por câncer entre crianças e adolescentes no Brasil vem se mantendo estável. Porém, ainda é a maior causa de mortes por doenças na faixa etária de 1 a 19 anos. Para o universo que cerca esses tipos específicos de cuidados em saúde, onde procedimentos e cotidianos exigem muito de familiares e de jovens pacientes, humanizar o atendimento e manter rotinas que suavizem a rotina dentro do hospital já é uma palavra de ordem. E, cada vez mais, acolher famílias e promover mais conhecimento para que possam entender e contribuir melhor para seus próprios tratamentos é outra frente essencial.

Essa semana, Belém (PA) sediou uma iniciativa nova para se alinhar a essas demandas. A programação do “I OncoJúnior – Fórum de Oncologia para Pacientes”, realizada durante toda a manhã da última quarta-feira, 21/6, no hotel Princesa Louçã, foi idealizada pelo Hospital Oncológico Infantil para ser, justamente, um evento onde crianças e adolescentes pudessem tomar contato, de forma lúdica, com informações cruciais para seus tratamentos.

Rodeando as palavras de incentivo ao planejamento e ao empoderamento para a geração de renda, dirigidas às participantes do I Workshop “Empreender – Fortalecendo o Protagonismo das Mulheres” – também realizado na mesma manhã, pelo Oncológico, para as mães e acompanhantes ligadas aos pacientes do hospital -, algazarras, pulos, música com dança e risadas rasgavam, por vez ou outra, a sobriedade dos debates abertos pelas palestras que avançavam ao logo de toda a manhã. Eram atividades que se desenrolavam em quatro outros ambientes do hotel, dirigidas a públicos de diferentes idades, e movidas a fôlego de brincadeiras e passatempos.

No carpete do salão principal de acesso ao auditório Carajás, pegadas multicoloridas já tinham sido trilhadas pelas crianças logo no início da manhã: ainda quando as mães começaram a participação no Workshop Empreender, os meninos e meninas foram convidados a irem às atividades do Fórum OncoJúnior.

Na abertura do evento, a diretora-geral do Oncológico Infantil, Alba Muniz, destacou a iniciativa de promover a programação simultaneamente ao I OncoJúnior – Fórum de Oncologia para Pacientes. “Pensamos nesse workshop, paralelo ao evento das crianças e adolescentes, porque sabemos que vocês, mães, não desgrudam deles. Sem eles, vocês não viriam, porque vocês estão sempre perto. Nós desejamos que vocês sejam cada vez mais protagonistas de suas vidas”, justificou Alba Muniz.

Cuidados integrais

“Isso tudo faz parte do esforço do Oncológico Infantil em conseguir abraçar por inteiro essas famílias. Elas precisam ser acolhidas para vencerem o desconhecimento e o medo frente à doença. Nós precisamos fazê-las entender o que é o câncer e como lidar com ele. É um grande desafio diário, cujos resultados são gratificantes”, avalia a médica Alayde Vieira, responsável pela coordenação da oncologia pediátrica do Hospital Oncológico Infantil.

A realização do I Workshop “Empreender – Fortalecendo o Protagonismo das Mulheres”, paralela à programação do I Fórum OncoJúnior, fez parte das comemorações dos 50 anos da Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, celebrados no último dia 9/6.

Gestora do Hospital Oncológico Infantil – unidade de atendimento público, ligada ao Sistema Único de Saúde e mantida pelo Governo do Pará, a Pró-Saúde também gerencia outros oito hospitais em todo o Estado, seis deles são instituições de saúde públicas como o Oncológico, ligadas ao Governo do Estado e geridas por meio de contrato firmado com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

O I Workshop Empreender foi uma das ’50 Ações do Bem’, iniciativas que as unidades gerenciadas pela entidade, em todo o País, promoverão ao longo de 2017, envolvendo colaboradores, pacientes, seus familiares e a comunidade em que estão inseridas. 

Não poderia haver combinação melhor. Tanto que o pequeno menino C.G., de dois anos, sentiu-se à vontade para adentrar, de novo, em voz alta, no salão onde a mãe ouvia dicas de empreendedorismo. Saiu das brincadeiras para encontrar a mãe, pedir um breve momento de atenção e também rogar pelo pão de queijo que já estava servido para o lanche do intervalo dos eventos.

‘É uma programação muito boa. Dá ideias’, concordava Patrícia de Oliveira, 30, que há nove meses iniciou com o filho a rotina de tratamento no Oncológico. Para isso, a família mudou-se de Uruará, município do sudeste do Pará, para Belém. Na capital, mãe e filho se mantêm com a ajuda da casa Ronald McDonald – parceira do Hospital Oncológico Infantil que apoia famílias do interior que procuram tratamento na capital, uma realidade que faz parte da rotina de 75% dos pacientes do Oncológico Infantil.

No Pará, antes do surgimento do Hospital Oncológico Infantil, em 2015, a expectativa média do Estado flutuava em torno de 120 casos novos diagnosticados, por ano, entre crianças e jovens – numa época em que esse atendimento era feito apenas pelo Hospital Ophir Loyola. Após a abertura do Oncológico Infantil, essa estimativa saltou à marca média de 256 novos casos registrados ao ano. “Isso significa que está havendo mais acesso à saúde”, avalia a diretora-geral do Hospital Oncológico Infantil, Alba Muniz.

O Oncológico quintuplicou a oferta de leitos para tratamento do câncer entre crianças e adolescentes no Pará. Hoje, o hospital dispõe de 89 leitos – dez deles em Unidade de Terapia Intensiva. Desde a sua abertura, o Pará não tem filas para a internação e tratamento público do câncer dirigidos a essa clientela.

A cada mês, o Oncológico faz cerca de 550 consultas, além de 2.500 sessões de quimioterapia e cerca de 110 internações. Os pacientes também têm acesso a atendimento de pronto socorro 24 horas por dia. São cerca de 20 atendimentos diários em Belém. “Precisamos agora que esses pacientes cheguem cada vez menos tardiamente ao nosso atendimento para que a sobrevida deles e as chances de cura sejam cada vez maiores, mas esse não é o desafio único. Humanizar o atendimento é fundamental”, assevera Alayde Vieira.

Avançar em diagnósticos precoces, especialmente no interior, por meio da assistência básica, é um desafio para que se consiga elevar a taxa de cura de crianças e adolescentes com câncer no Pará, que hoje é de 50% – enquanto a média do resto do País é de 65%. “Essa condição está diretamente ligada ao tempo de diagnóstico, que ainda ocorre muito tardiamente na nossa região. As chances de cura aumentam à medida que a doença é detectada mais cedo”, ressalta Alba Muniz.

Laços que fortalecem

Numa das salas da programação do I Fórum OncoJúnior, o estudante Paulo Lucas, 17, conversava distraidamente com amigos. Na cabeça, sua boina vermelha. Nada aparenta que já soma um ano e meio em tratamento no Hospital Oncológico Infantil. “A vida quase para quando a gente entra num hospital. E a minha mudou muito desde então. Mas momentos como esses, com todas essas coisas para fazer e todos esses motivos para se encontrar, são muito legais”.

Pouco depois, Lucas dividiria mais alguns sorrisos com amizades feitas no hospital, sentado ao lado de uma roda de violão. Horas antes, no início da manhã, serenamente já tinha caminhado, com o apoio de suas muletas, até a mesa de abertura que deu a largada ao fórum oncológico infantojuvenil e ao workshop programado para mães e acompanhantes do hospital.

Lá, naquele início de dia, onde representou os mais de 650 meninos, meninas e jovens cujos tratamentos fazem do Oncológico Infantil seu segundo lar, dividiu, ombro a ombro, a mesa de abertura com convidados renomados e autoridades. Aproveitou para deixar, de forma altiva, o seu recado simples, que resumiu aquela manhã especial de junho: “Muito já foi dito. Agora, basta só dizer que é bom estarmos todos aqui juntos. Estamos agradecidos”, sorriu.